quinta-feira, 28 de junho de 2012

A violência do machismo, as estatísticas e a “marcha das vadias”

Com pesar, há duas semanas atrás, constatei a estarrecedora estatística sobre o Feminicídio no município de Guarapuava e no Estado do Paraná. Não que aqueles/as que tratam todos os dias com essa questão ficassem surpreendido/as, mas quando vemos que as publicações oficiais ratificam o que já é sabido pelos movimentos sociais, precisamos respirar fundo para seguir adiante.
O mapa publicado sobre os padrões da violência no Brasil é um estudo que analisa os últimos 30 anos de violência homicida no país (http://www.mapadaviolencia.org.br/). Este mapa aponta as principais características dos homicídios em todo o país: nas 27 Unidades Federadas, 27 Capitais, 33 Regiões Metropolitanas e nos 200 municípios com elevados níveis de violência. Infelizmente, Guarapuava faz parte deste estudo.
O Mapa da Violência 2012 tem um caderno complementar centrado na problemática da vitimização de mulheres por homicídios no país, e devido à relevância da questão está sendo divulgado em separado. Primeiro é preciso enfatizar que o Feminicídio se refere ao assassinato de mulheres em meio a formas de dominação, exercício de poder e controle sobre as mesmas. Nos meios acadêmicos é denominado de assassinato baseado no “gênero”: o Feminicídio é um crime que tem por base a crença na superioridade masculina e na propriedade que os homens tem (ou deveriam ter) sobre o corpo das mulheres. Por isso o Feminicídio é o assassinato de mulheres cometidos por companheiros, ex-companheiros, namorados, ex-namorados, pais, irmãos, etc., ou ainda aqueles que foram recusados em termos afetivos e sexuais. Todos esses homens sentiram-se feridos, aviltados, machucados por terem seu pretenso “direito” de proprietário contestado.
Em termos de direitos constitucionais as mulheres conquistaram avanços consideráveis ao longo de todo o século XX. A presença das mulheres em todos os espaços sociais é uma das principais características do século que recém se findou. Entretanto, as mudanças culturais ainda urgem por acontecer e a mentalidade machista ainda é uma constante em nossa sociedade.
As estatísticas do Feminicídio confirmam a permanência da visão machista do mundo social. Na América Latina e no Caribe, os assassinatos de mulheres e meninas têm se intensificado ao longo dos últimos anos. Um dos principais motivos para o aumento desses índices é a não aceitação por parte de homens da autonomia e da liberdade das mulheres.
Nos últimos 30 anos (1980-2010) foram assassinadas no Brasil perto de 91 mil mulheres, sendo que 43,5 mil só na última década. O número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.297, o que representa um aumento de 217,6% de mulheres vítimas de assassinato. Em escala nacional o Estado do Paraná – localizado no sul “maravilha” - é o terceiro do ranking do Feminicídio com a taxa de 6,3 assassinatos para cada 100 mil mulheres. Número que se iguala a média nacional da Colômbia.
Dentre os 578 municípios que contavam no Censo de 2010 com mais de 26.000 mulheres, Guarapuava apresenta praticamente o dobro da média nacional com o índice de 8,2 é o 91º município mais violento para as mulheres. Para dar visibilidade a esses dados, no dia 23 de junho, mulheres e homens irão marchar em Guarapuava contra o Feminicídio, a Violência Sexual, o Racismo e a Homofobia. A ironia e o escarnánio contido no nome da marcha “das vadias”, de difícil compreensão e aceitação em terras guarapuavanas, infelizmente assustam mais as pessoas do que os escabrosos dados aqui apresentados. A população é conivente quando culpa a vítima e “esquece” do criminoso. A zombaria das “vadias” vem romper com esse ciclo de culpabilização que contribui para o descaso dos agentes do poder público com essa alarmante realidade. 

TEXTO:  Profª Drª Rosemeri Moreira
  

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